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31.1.12

As Mãos


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.


Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.


E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.


De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967

21.1.12

Solidão

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Canta o galo, à madrugada,
a sua primeira canção.
E há gente ainda acordada
a falar co'a solidão.

Solidão, oh solidão,
estende pr'a mim o teu manto,
escuta a voz de um coração
que ama longe, o seu encanto.
Jorge Dias

18.1.12

Brasil

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Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.

Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse

Ente o chão encontrado e o chão perdido

Torga

30.12.11

A Fonte dos Amores

soares de passos

Eis os sítios formosos, onde a triste
Nos dias d’ilusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d’amor inda lhe guardam.
Oh! Quantas vezes, solitária fonte,
Após longo vagar por esses campos
Do plácido Mondego, nestas margens
A namorada Inês veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
Aos montes e às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinha!
E quantas, quantas vezes no silêncio
Desta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos êxtases da terra os céus gozando!

Pobre, infeliz Inês! breves passaram
Os teus dias d’amor e de ventura.
Ao régio moço o moço renderas,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do bárbaro pai, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, ei-lo que aos sítios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante do teu bem, ao desamparo,
Ai! não pudeste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d’Afonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ânsias
Abraçando teus filhinhos inocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos ímpios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Ei-los a ti correndo, ei-los que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio cristalino,
Que tanto amou, oh bárbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonizante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos inocentes abraçada expiras.

Inda, infeliz Inês, inda saudosos
Estes sítios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os ecos, brisas,
Parecem murmurar a infanda história;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Às margens, e aos rochedos comovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.

Soares de Passos

20.12.11

Natal

natal-reis magos

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…


Miguel Torga

2.12.11

Quase Um Poema de Amor

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Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor

 
Miguel Torga

19.11.11

José Régio


Balada de Coimbra, de José Régio

João Moura - Guitarra Portuguesa
Luís Veloso - Guitarra Clássica
Abel Gonçalves - Flauta
Aurelino Costa - voz

18.11.11

Coimbra

afonso duarte
AFONSO DUARTE

Joaquim Afonso Fernandes Duarte nasceu em Ereira, Montemor-o-Velho, no dia 1 de Janeiro de 1884.
Licenciado em Ciências Físico-Naturais, foi professor primário em Coimbra, tendo sido afastado dessas funções por se opor à ditadura de Salazar. É então que se dedica à sua obra poética e à investigação pedagógica.
Foi colaborador das revistas A Águia, A Rajada, Contemporânea, Presença, Seara Nova e Vértice.
Morreu em Coimbra a 5 de Março de 1958.
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Coimbra

Descem do Outeiro as casas da cidade
Como rebanho de ovelhinhas brancas
Que viessem com sede até ao rio.
E, coleante cobra, vai subindo a encosta
Íngreme, a estrada, entre surribos verdes:
É lá o Vale do Inferno onde demora
A curva do caminho, e dá descanso
Múrmura fonte: e donde Coimbra – cidade
É habitável sonho de poetas.
E desço aonde? Aos laranjais das ínsuas,
Às margens dos salgueiros e dos choupos:
“Líricas de Camões” dão-me vigílias,
“Amantes rouxinóis” modulam sonho.

Olha: o Jardim, a Mata, e o par de namorados
Que deslaçam as mãos das verdes heras
Que cobrem os frondosos troncos seculares
Já quando te aproximas! Oh! noivas idades
Que procuram recantos entre as árvores
E as águas que murmuram! Pois os risos
Lavam e as lágrimas enxugam.
Rio acima, para o alto içando as velas,
Lá vêm da Foz as barcas dos serranos
Ajudando-as da margem com as sirgas:
E, num adeus que fica para sempre,
Que lindas, quando as leva o braço e o vento!
Afonso Duarte

14.11.11

Com Fúria e Raiva

sophia melo breyner
Sophia de Melo Breyner Andresen

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner

10.11.11

As Putas da Avenida

Assis Pacheco
Fernando Assis Pacheco 

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


Fernando Assis Pacheco

8.11.11

Comunicado

mtorga
Miguel Torga

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

15.10.11

Frustração

Torga
Torga

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Miguel Torga, in Diário XV

10.9.11

Querer

girassol

Sem cinzel se esculpe uma paixão
Na granítica rocha transmontana.
É bastante o pulsar do coração
Tomado pela melancolia
Do espaço montanhês
Que assalta a cada dia
Quem, como tu, cismontana
De longe ouves e vês
Os pássaros a cantar
A bruma do alvorecer
O latir aos lobos e o borbulhar
Da água das ribeiras a correr.

PM

28.8.11

O Amor e o Tempo

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António Feijó

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!


António Feijó

22.7.11

Canção da Cidade Adormecida

Portagem

Diz-me tu ó cidade...
Em que sonhos no teu ventre guardas
Essas capas de liberdade,
Se na revolta da mocidade
Não há cavalos nem espadas!

Diz-me tu ó cidade
Em que desenganos me embalas?
Se adormecendo a saudade,
Lhe vais roubando a eternidade
Que cruelmente me calas!

Diz-me então ó cidade...
Porque desarrumas meu peito?
Se nasce em mim o teu rio,
Que espera que passe um navio
De sonhos e mágoas refeito...

Eduardo Filipe

29.6.11

Balada dos Aflitos

Manuel Alegre

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.

Manuel Alegre
(Junho 2011)

13.6.11

Fonte dos Amores

FontedosAmores
Quinta das Lágrimas 

As filhas do Mondego, a morte escura
Longo tempo chorando memoraram
E por memória eterna em fonte pura
As Lágrimas choradas transformaram
O nome lhe puseram que ainda dura
Dos amores de Inês que ali passaram
Vede que fresca fonte rega as flores
Que as Lágrimas são água e o nome amores

Luis de Camões

25.5.11

Súplica

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Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga

12.5.11

Amigos

APERTO~11

Hoje lembrei dos tempos de criança.
Recordei muitos amigos de infância.
Com eles brinquei, briguei e estudei.
Amigos de sempre que um dia deixei.

Poucos brinquedos, muito riso e brincadeira.
Improvisar com caricas, latas e madeira.
O peão a rodar na palma da mão.
O prego no chão. O primeiro era campeão.
A bola na rua e no recreio da escola.
A bicicleta, roda vinte e oito, feita num oito.
Os carrinhos de esferas com "aceleras".
Rolha, chumbo, anzol, dois metros de fio e cana do rio.
Os berlindes coloridos, ganhos e perdidos.
Os cromos da bola na caderneta com cola.

Nas férias, os dias eram pequenos.
Na escola, enchiam os cadernos.
Brincar na rua, tinha hora marcada.
Não ouvir chamar e fugir da palmada.

Muitas diabruras, dos livros de aventuras.
Fomos índios e cowboys e fantasmas de lençois.
À noite os sustos, escondidos nos asbustos.
Tudo nas caminhas, tocavam as campaínhas.
Dar aos sapatos. Na frente iam os gatos.

Antes que se apague a lembrança,
Escrevo o que a memória alcança.
Viver e brincar, sempre o fiz e farei.
Os amigos, nunca esquecerei.
(Pedro Arunca)

6.5.11

Canção da Cidade Adormecida

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Diz-me tu ó cidade...
Em que sonhos no teu ventre guardas
Essas capas de liberdade,
Se na revolta da mocidade
Não há cavalos nem espadas!

Diz-me tu ó cidade
Em que desenganos me embalas?
Se adormecendo a saudade,
Lhe vais roubando a eternidade
Que cruelmente me calas!

Diz-me então ó cidade...
Porque desarrumas meu peito?
Se nasce em mim o teu rio,
Que espera que passe um navio
De sonhos e mágoas refeito...

(Eduardo Filipe)